Vinte anos atrás, eu era gamer. Hoje, ainda sou. Jogar sempre foi uma das influências mais fortes na minha vida, moldando como penso, aprendo e até como encaro meu trabalho. Cada fase da minha vida está de alguma forma ligada a um jogo específico, uma trilha sonora ou uma tela brilhante que me fez companhia em noites longas.
Apesar da descrença do meu pai nos jogos e do medo de que GTA San Andreas me transformasse em um encrenqueiro, os jogos me ensinaram muito mais do que jamais me prejudicaram. Por meio deles, aprendi lógica, resolução de problemas, trabalho em equipe e criatividade.
Antes dos jogos
Antes de descobrir o mundo dos jogos, eu era um daqueles nerds quietos que se encontram em toda escola. Lia muito, passava a maior parte dos intervalos na biblioteca, adorava o laboratório de ciências e jogava xadrez em vez de futebol. Música era outra parte da minha rotina, e eu tocava orgulhosamente na banda municipal. Ainda assim, meu contato com computadores era muito limitado. Meu pai comprou nosso primeiro computador quando eu tinha onze anos, mas eu só o usava para digitar ou ouvir música.
Tudo mudou quando eu tinha treze anos. Meu pai comprou de alguém um computador usado e, para minha surpresa, ele estava cheio de jogos. Não apenas alguns: era muita coisa! Eu não lembro mais de boa parte deles, mas certamente o que mais me chamou a atenção foi Total Annihilation.
Descobring como meu cérebro funciona
Um dia, um amigo veio até minha casa e reconheceu imediatamente os ícones espalhados pela área de trabalho. “Meu Deus, você tem Total Annihilation?”, ele disse. Eu não sabia o porquê de tanta empolgação. Ele abriu o jogo e eu fiquei fascinado. Não era apenas divertido; parecia uma forma inteiramente nova de pensar. Era como se eu tivesse descoberto como o meu cérebro funciona de fato.

Daí em diante, passei meses jogando todos os dias. O ritmo do jogo combinado com as músicas que eu ouvia, bandas como Apocalyptica e Angra, fazia tudo parecer épico. Mais tarde, esse mesmo amigo me apresentou a outros dois entusiastas de computadores, um dos quais era o antigo dono do computador que meu pai havia comprado (todos aqueles jogos agora fizeram sentido). Esse foi o começo de uma amizade que dura até hoje.
Uma amizade em volta dos jogos
Passamos incontáveis tardes jogando juntos. Jogávamos Monster Hunter e Shadow of Colossus no PS2. No PC, jogávamos Fly for Fun (MMO), Warcraft III, DOTA All Stars, Counter-Strike e outros.

Às vezes eu pedia à um dos meus amigos, cuja casa era nosso lounge de jogatinas, para gravar jogos em CDs. Minha internet era muito fraca, e ele tinha o privilégio de morar em um lugar onde internet de alta velocidade estava disponível (por alta velocidade quero dizer 50Kb/s). Uma vez ele gravou um CD com a legenda “Pornô Gay Hardcore Cavalos”. Juro que tava cheio de jogos. Era só ele sendo palhaço. lol
Em casa, explorava jogos para um jogador como The Sims 2, Spore, Need for Speed: Most Wanted e Banished. Não tinha um preferência. Jogava algo até o final e seguia a recomendação de meus amigos sobre o que jogar em seguida.

Esses momentos não apenas me entretinham. Eles me deixavam curioso sobre como as coisas funcionavam nos bastidores.
Aprendendo mais sobre computadores
Minha curiosidade sobre computadores cresceu rapidamente. Aprendi a instalar jogos, resolver problemas e reorganizar arquivos quando algo dava errado. Eu não sabia, mas esses pequenos passos foram minha introdução a sistemas e lógica. Comecei a entender que a tecnologia não era apenas uma ferramenta de entretenimento, mas algo que eu poderia dominar.
Em 2008, eu morava em uma pequena cidade do interior onde conexões de internet eram raras. O governo criou um programa chamado “Telecentro”, que fornecia acesso público a computadores e à internet. Quando tinha dezesseis anos, candidatei-me para ser um dos estagiários responsáveis pela manutenção dessas máquinas. Elas usavam Linux, e essa experiência expandiu enormemente meu conhecimento. Foi a primeira vez que ouvi falar de Python e, embora não o tenha usado muito na época, a semente foi plantada.
Todos os dias, baixava livros e tutoriais, armazenava-os no meu tocador de MP3 e os lia em casa, onde não tinha internet. Eu era fascinado por HTML, layouts de sites e por como linhas de texto podiam se transformar em cores e imagens em uma tela. Minha paixão por jogos evoluiu lentamente para a curiosidade sobre como o software era construído.
Início da vida adulta e a era dos jogos online
Quando fiz dezoito anos, saí da minha cidade natal. Por um tempo, não tive computador, então meus jogos se limitavam aos fins de semana na casa da minha mãe. Mais tarde, quando finalmente comprei um computador novo em parcelas mensais, tudo mudou. Parecia liberdade. Reconectei-me com amigos pelo MSN, joguei partidas online e descobri a alegria das LAN parties. Organizávamos sessões noturnas de jogos, torneios de DOTA e maratonas nos fins de semana. Era pura diversão e conexão.
Naquela época, meus títulos favoritos eram DOTA All Stars, DOTA 2 e Warcraft III. Também gostava de experimentar jogos como Call of Duty, SimCity 4 e RollerCoaster Tycoon. A mistura de competição, criação e simulação combinava perfeitamente com minha personalidade.

Steam e a era moderna
Quando criei minha conta Steam, só podia jogar títulos gratuitos como DOTA 2 e Counter-Strike. Com o tempo, minha biblioteca cresceu conforme eu comprava mais jogos. Quando depois me mudei para uma cidade costeira e consegui um emprego estável, finalmente tive condições de explorar os jogos como sempre quis. Minha biblioteca Steam se tornou meu museu pessoal, cheio de centenas de jogos esperando para serem jogados.
Descobri Factorio nessa época, e ele mudou tudo. Construir fábricas automatizadas e otimizar linhas de produção se encaixava na minha mente como LEGO para adultos. Também passei tempo em jogos sandbox como Cities: Skylines, Satisfactory e RimWorld, cada um testando um lado diferente da minha criatividade e lógica.

Jogando hoje
Hoje, ainda jogo, embora meus hábitos tenham mudado. Prefiro jogos offline ou PvE, que me permitem pausar e retornar no meu próprio ritmo. Bons exemplos são meu favorito de todos os tempos, Factorio, e, ultimamente, Escape from Duckov. Ser pai deixa menos tempo para longas sessões online, mas os jogos ainda me dão a mesma sensação de calma e inspiração de antes.

No entanto, a indústria de jogos se transformou drasticamente. Jogos como Fortnite, Roblox e Minecraft criaram ecossistemas universais em que a plataforma não importa.
Os jogadores não se identificam mais como jogadores de PC ou console. Eles se identificam pelo jogo que jogam. Meu filho é um exemplo perfeito. Ele joga apenas Roblox e, dentro dele, explora incontáveis mundos criados por outras pessoas. Para ele, Roblox não é um jogo: é todo o universo dos jogos.
Olhando para trás
Quando olho para trás, percebo que jogar não foi apenas uma fase ou distração. Foi uma educação disfarçada. Ensinou-me a pensar, colaborar e permanecer curioso. Ajudou-me a encontrar meu caminho na tecnologia e ainda me lembra que a curiosidade e a criatividade valem a pena ser cultivadas.
Jogar em 2005 foi a faísca que começou tudo. Foi uma época de descoberta, amizade e imaginação. E, ainda hoje, toda vez que abro um jogo novo, ainda sinto a mesma empolgação que sentia vinte anos atrás.
Até a próxima. Fiquem seguros, mantenham-se hidratados.